domingo, 14 de dezembro de 2014

O Cordel em sala de aula

Trabalho com a literatura de cordel desde que comecei a lecionar pelo fato de serem textos que atraem a atenção do público que ensino. Minha primeira sala de aula propriamente dita foi na zona rural através do programa Lendo e Aprendendo do Governo Federal. Lecionei na EJA durante um ano e a poesia me auxiliou muito no processo de alfabetização, em especial o cordel. Creio que chamou a atenção do leitor justamente pelo fato de ser uma literatura que, como a autora mesmo defende, reflete a individualidade da língua que abarca a variedade linguística do Nordeste.

A autora também defende que a Literatura de Cordel não só traz uma riqueza estilística, mas também nos possibilita debater sobre a realidade de nossa sociedade nos deixando bem sintonizados com as propostas de Vygotsky, tendo e vista que o mesmo entende a educação formal como instrumento essencial de humanização. O cordel também possibilita um ensino interdisciplinar e contextualizado que possibilita o exercício da cidadania fazendo com que o aluno seja protagonista do processo de aprendizagem, como defende os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais).

Para BaKhtin (2000), não importa a esfera da atividade humana, ela sempre estará ligada a utilização da linguagem orais ou escritas e isso irá refletir sempre nesse meio, sendo que a obra estará fundida em três elementos que são: conteúdo, estilo e construção composicional. Outro ponto que não pode ser deixado de lado defendido pela autora é que, como as atividades humanas é grande e variada e que se manifesta numa grande massa heterogênea, há que se entender a distinção entre os gêneros que podem ser primários ou secundários. 

Os professores que trabalham ou que pretendem trabalhar com gêneros é preciso fazer uma distinção entre as categorias para saber escolher bem o material que pretende utilizar. O cordel se classifica entre os gêneros secundários pelo fato do mesmo ser construída dentro de uma estrutura complexa e elaborada. O fato é que em nossos dias não podemos lançar mão de um texto penas para ensinar gramática ou literatura, mas a obra pode e deve ser vista pelas suas significações e relações que estabelece pelo texto e a realidade do mundo. (ROJO, 2006) Do ponto de vista da autora, agindo assim, os alunos estão perdendo a noção do que as escolas literárias realmente são e de que em dado momento os autores se valeram da criatividade e do momento hitórico-social no qual estava inseridos. 

Outro ponto bastante interessante que a autora nos chama a atenção é a importância do contato dos alunos com os variados gêneros textuais. Alerta para a necessidade de valorização das condições concretas de comunicação literária, tendo em vista que a leitura não acontece no vazio. Ela surge na escola como uma forma de colocar o educando em confronto com o outro.

A autora termina o texto frisando um fato muito importante, é que o aluno de hoje precisa ver o mundo além dele mesmo, pois aquele que não o fizer corre o risco de ficar a margem do seu próprio mundo, tendo em vista que a modernidade se faz presente e tem excluído aqueles que não tem preenchido seus requisitos ou que tem se contentado com o superficial. 

No cordel “A História da Donzela Teodora” podemos observar vários pontos que comprovam os pontos elencados acima. Percebemos nos primeiros versos resquícios da história antiga quando as mulheres ainda eram vendidas como escravas. Nos versos a seguir vemos a presença do estudo da ciência e da anatomia nos seguintes versos: descrevia os 12 signos / de que é composto o ano / da cabeça até os pés / conhecia o corpo humano / e dava definição / de tudo do oceano Se referindo à inteligência da donzela.

Podemos observar no cordel a presença do contexto histórico. Observamos a presença do período medieval quando se fala em mercadores, mascates, reis vassalos. Nos versos: Disse o rei ao mercador / senhor estou surpreendido 10 mil dobras de bom ouro / é preço desconhecido / ou tu não queres vende-la / ou estais fora do sentido, podemos ver a presença do sistema monetário onde a moeda vigente da época era o peso do ouro. Na página 09 vemos a presença marcante da astrologia e astronomia quando o sábio questiona a jovem para saber de sua inteligência. Pode se fazer uma abordagem sobre o folclore usando os versos a partir da página 20 como base, pois encontramos muitas adivinhações, algo bastante utilizado no folclore brasileiro.

Em fim, o que podemos observar nesse cordel é que, além da beleza dos versos, o texto poderá ser utilizado na sala de aula como suporte para o ensino de história, ciência e até geografia. Como podemos observar no texto analisado de Roberta Monteiro Alves, a literatura de cordel pode servir de suporte para o ensino não só de língua portuguesa, mas também das demais disciplinas.

REFERÊNCIAS:

MAGALHÃES, Belmira. O ensino de Literatura e a interconexão entre representação literária e história. In: Leitura. Maceió: Imprensa Universitária, UFAL, 2005

ROJO, Rosane. O texto como unidade de ensino e o gênero como objeto de ensino da Língua Portuguesa. In: TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Encontro na linguagem: estudos lingüísticos e literários. Uberlândia: EDUFU, 2006.

VYGOTSKY, Lev S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

Nenhum comentário :

Postar um comentário